sábado, 26 de julho de 2014

Diário de Pernambuco - Último tributo em vida ao mestre foi no sábado, pela Associação dos Músicos de Bom Conselho



Uma valsa embalou o último encontro do ídolo Ariano Suassuna com fãs anônimos. Romântica, celebrava sonhos, emoções e o amor. Os amigos da Associação dos Músicos de Bom Conselho (AMABC), município Agreste de Pernambuco, esperaram por anos pelo abraço, pela foto que eternizasse a proximidade com o mestre. Conseguiram. Para homenageá-lo e serem afagados por um dos homens que os inspiraram na propagação da arte musical, no último sábado entoaram Fascinação, conhecida na voz de Elis Regina.

Ariano estava hospedado no Hotel Tavares Correia, após uma aula-espetáculo no Festival de Inverno de Garanhuns (FIG), quando uma pequena comitiva autorizada pela assessoria do escritor chegou ao encontro dele “Esperamos tanto por esse momento. Não sabíamos que ele adorava essa música. Quando o maestro Francisco Aguiar começou a tocar o clarinete, Ariano abriu um sorriso e perguntou: como vocês sabiam?”, contou Carlos Alberto de Oliveira, produtor cultural e presidente da AMABC.

O título de sócio benemérito da instituição, honraria aquele que tanto incentivava e fomentava o desenvolvimento da cultura regional, foi entregue na ocasião para Ariano. O hino do Carnaval de Zé Puluca, festividade promovida pela instituição há quase cinco décadas e da qual Ariano era tido como patrono, foi apresentado pelo maestro Francisco Aguiar, e pelo musicista Danilo Aquino, com o seu saxofone. Uma ode á diversidade em quatro composições, como Ariano gostava, simples, feito ele.

Acreditavam os filiados da AMABC que aquela seria uma prévia da prometida aula de Ariano em Bom Conselho. “Estava tudo certo”, confirmou Carlos, em entrevista concedida uma hora antes do anúncio da morte. A expectativa era grande. Ela já tinha sido marcada outra vez. No ano passado, a culpa foi do infarto. No blog carnavaldezepuluca.blogspot.com.br, as solicitações para que a aula acontecesse e o retorno do gabinete de Ariano viraram até postagens. O agravamento do estado de saúde de Ariano seguia o mesmo modelo e era relatado para os leitores, como o patrono merecia. “Desta vez, desde que soube do AVC, na terça bem cedo, fiquei deprimido e triste. Você precisava ver como ele estava no sábado passado. Firme, sorridente, forte ...” narrou o presidente e admirador do escritor”.  “Meu amor por ele tem uma razão de ser: vem da paixão de Ariano pela cultura do nosso povo”. 

Do interior a metrópole, do Nordeste ao Sudeste, tinha fâs. E distribuía simpatia com o jeito de falar popular e acenos. Agradava muitos pela forma colonial com quem falava, ou pela autenticidade das declarações. Ficarão muitas delas. Em reuniões políticas de figurões, agia do mesmo modo Ariano era Ariano.

Por onde andava, se via gente querendo fotografá-lo, pegando autógrafo ou apontando para ele. Era celebridade nacional da categoria dos gênios (só não o definisse e não o defina como “popstar”porque, avesso ao estrangeirismo, ria da expressão. Era figura da espécie dos que, quando morre, um séquito de admiradores procuravam, frase, palavras para falar sobre ele. 

Último tributo em vida ao mestre foi no sábado, pela Associação dos Músicos de Bom Conselho.

Fonte: Silvia Bessa - Diário de Pernambuco - Caderno Especial - Auto de Ariano - Fls,11 - publicado em 24/07/2014.